A carregar página
Saltar para o conteúdo principal da página

Mitos e Verdades em Saúde — Uma Série para Pais e Cuidadores

10 mai. 2026
Saúde

Blog da Pediatria Sérgio Lamy

Inspirado na obra “Mitos e Crenças na Saúde”, do Prof. António Vaz Carneiro (Livros Horizonte, 2019) — um livro de referência em medicina baseada na evidência, acessível a todos.

A informação sobre saúde chega-nos hoje de todo o lado: da televisão, das redes sociais, do grupo de WhatsApp da família, da vizinha bem-intencionada. Muita dessa informação é útil. Outra parte, infelizmente, são mitos que se repetem há décadas — alguns inofensivos, outros capazes de atrasar um diagnóstico ou de levar a decisões pouco acertadas.

Nesta série de artigos vamos revisitar, com espírito tranquilo e apoiados na melhor ciência disponível, algumas das crenças mais comuns com que os pais se cruzam no dia-a-dia. O objetivo é simples: dar-lhes mais literacia em saúde, mais confiança nas decisões, e menos ruído à volta daquilo que verdadeiramente importa — a saúde dos vossos filhos.

Índice da série

1.        As vacinas causam autismo? O mito que custou vidas

2.        O meu filho tem febre — serão os dentes a nascer?

3.        O açúcar deixa as crianças “elétricas”? O que diz a ciência

4.        Correntes de ar, cabelo molhado e constipações: o grande mal-entendido do inverno

5.        Grávida em época de gripe: vacinar ou não vacinar?

6.        Férias, praia e piscina: é verdade que não se pode ir à água depois de comer?

7.        Queimadura em casa: o que fazer (e porque não deve pôr manteiga)

8.        “Engoliu uma pastilha elástica!” — acalmar os pais em 3 minutos

9.        Vitamina C para a constipação do inverno: funciona mesmo?

10.       Suplementos e multivitamínicos para crianças: são necessários?

1. As vacinas causam autismo? O mito que custou vidas

Mito: As vacinas, em particular a tríplice (sarampo, papeira e rubéola), provocam autismo nas crianças.

Este é, provavelmente, o mito mais prejudicial da pediatria moderna. E tem uma história concreta.

Em 1998 foi publicado um pequeno estudo numa revista científica de prestígio, descrevendo doze crianças com autismo cujos pais acreditavam que a doença tinha aparecido após a vacinação. O estudo espalhou-se pela imprensa como um incêndio. O resultado foi imediato: no Reino Unido, a cobertura vacinal caiu cerca de 15%, e os casos de sarampo — uma doença que pode ser mortal — voltaram a subir.

Há apenas um detalhe: o estudo estava errado.

Em 2010, foi formalmente retirado da revista. Investigações posteriores demonstraram graves problemas metodológicos e conflitos de interesse do autor principal. Ao longo dos anos seguintes, a comunidade científica realizou dezenas de estudos robustos, envolvendo milhões de crianças, em vários países. Nenhum encontrou qualquer ligação entre vacinas e autismo. Nem um único.

O que sabemos hoje com certeza

O autismo é uma perturbação do neurodesenvolvimento cujos primeiros sinais aparecem tipicamente nos primeiros dois ou três anos de vida — ou seja, precisamente na mesma altura em que as crianças recebem várias vacinas. Esta coincidência temporal criou a ilusão de causalidade. Mas coincidência não é o mesmo que causa.

O aumento dos diagnósticos de autismo nas últimas décadas explica-se, em grande parte, por critérios de diagnóstico mais alargados e por uma maior consciencialização, e não por nenhuma “epidemia” provocada por vacinas.

A mensagem para os pais

Vacinar os filhos de acordo com o Plano Nacional de Vacinação é uma das decisões mais seguras e mais importantes que podem tomar pela saúde deles. Os benefícios são enormes — protegem o vosso filho e toda a comunidade. Os riscos são mínimos. Se tiverem dúvidas, falem comigo na consulta. Estamos cá para esclarecer, com calma e com tempo.


2. O meu filho tem febre — serão os dentes a nascer?

Mito: A erupção dos dentes provoca febre nos bebés.

É uma das frases mais ouvidas em consultas de pediatria: “Ele tem estado com febre, mas deve ser dos dentes.” Por vezes é. Mas, na esmagadora maioria das vezes, não é.

A ciência é clara sobre este ponto: quando estudos rigorosos comparam bebés em fase de erupção dentária com bebés que não estão, não encontram aumento consistente de temperatura corporal acima dos 37,5°C atribuível aos dentes. Pode haver irritabilidade, salivação aumentada, gengivas doridas — isso sim, é normal. Febre verdadeira, não.

Porque é que isto importa?

Esta crença parece inocente, mas pode ser perigosa. Se um bebé tem febre e os pais assumem que “são os dentes”, podem atrasar a avaliação de uma infeção urinária, de uma otite, de uma pneumonia, de uma meningite — situações em que cada hora conta.

Na maioria dos casos, a febre num bebé deve-se a uma infeção viral banal que se resolve sozinha. Mas essa conclusão tem de ser tirada por um médico, não pela dentição.

O que fazer se o bebé tiver febre

•          Nos primeiros 3 meses de vida, qualquer febre (temperatura rectal ≥ 38°C) deve ser avaliada urgentemente.

•          Entre os 3 meses e os 3 anos, deve observar-se o estado geral: se a criança está reactiva, a brincar, a beber líquidos, pode esperar-se algumas horas. Se está prostrada, com mau aspeto, com recusa alimentar marcada, ou se a febre persiste mais de 48h — contactem o pediatra.

•          Nunca atribuam a febre aos dentes sem ter afastado outras causas.

Os dentes explicam a baba. Raramente explicam a febre.


3. O açúcar deixa as crianças “elétricas”? O que diz a ciência

Mito: Comer doces e açúcar provoca hiperatividade nas crianças.

É um dos pilares da sabedoria popular: festas de anos em que as crianças correm freneticamente e os pais concluem, com um suspiro, “foi do açúcar”.

Pois bem: as crianças ficam mesmo excitadas nas festas. Mas não é por causa do açúcar.

Várias revisões sistemáticas da literatura científica — ou seja, análises que combinam os resultados de dezenas de estudos — já investigaram esta questão. O padrão é sempre o mesmo: quando se dá açúcar a um grupo de crianças e um substituto sem açúcar a outro grupo, sem que os pais nem os observadores saibam qual é qual, não se encontram diferenças no comportamento.

O que acontece é que os pais, convencidos de que o açúcar altera o comportamento, vêem essa alteração mesmo quando ela não existe. A este fenómeno chama-se viés de expectativa — e é perfeitamente humano.

Então porque é que os miúdos ficam agitados nas festas?

Porque são festas. Há música, amigos, brincadeiras, uma rotina diferente, pais distraídos, liberdade. Qualquer criança fica eufórica nesse contexto — com bolo de chocolate ou sem ele.

Mas isto quer dizer que o açúcar não faz mal?

Faz. Só que por outras razões. O consumo excessivo de açúcar nas crianças está claramente associado a cáries dentárias, obesidade, e risco aumentado de diabetes tipo 2 a longo prazo. Há bons motivos para limitar os doces — mas a “hiperatividade pós-festa” não é um deles.

Se o seu filho parece consistentemente mais agitado, desatento e impulsivo do que seria esperado para a idade, em vários contextos (escola, casa, atividades), isso merece uma avaliação clínica. A Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) é uma condição real e tratável — e que nada tem a ver com o que o seu filho comeu ao lanche.


4. Correntes de ar, cabelo molhado e constipações: o grande mal-entendido do inverno

Mito: As correntes de ar, o frio e sair com o cabelo molhado provocam constipações.

“Fecha essa janela, vais constipar-te!” Há expressões que atravessam gerações. Esta é uma delas. E, infelizmente, é falsa.

As constipações são provocadas por vírus — mais de 200 subtipos diferentes, sendo os rinovírus os mais frequentes. Sem vírus, não há constipação, por muito frio que esteja. Ponto final.

Num estudo curioso, investigadores inocularam deliberadamente o vírus da constipação em voluntários e, de seguida, expuseram metade deles ao frio intenso. O resultado? Nenhuma diferença na taxa de infeção entre quem tinha passado frio e quem não tinha. A mesma lógica se aplica a molhar os pés, sair com o cabelo húmido, ou apanhar uma corrente de ar.

Então porque é que nos constipamos mais no inverno?

Por uma razão prosaica: passamos mais tempo fechados em espaços interiores, em contacto próximo com outras pessoas que podem estar a expirar, espirrar e tossir vírus. As escolas, nomeadamente, funcionam como verdadeiros reservatórios de vírus respiratórios — é por isso que as crianças em idade escolar podem fazer 6 a 10 constipações por ano, e trazê-las para casa.

Os vírus transmitem-se:

•          Pelas mãos (mão contaminada → olhos, nariz ou boca)

•          Por gotículas no ar, quando alguém fala, tosse ou espirra

•          Pelo contacto com superfícies contaminadas

Como proteger o seu filho de verdade

•          Lavar bem as mãos, várias vezes ao dia, sobretudo antes de comer

•          Ensinar a tossir e espirrar para o cotovelo (nunca para as mãos)

•          Manter as vacinas em dia, em especial a da gripe no outono

•          Evitar contacto próximo com pessoas com sintomas, sempre que possível

O agasalho serve para o seu filho não passar frio, não para não se constipar. São coisas diferentes.


5. Grávida em época de gripe: vacinar ou não vacinar?

Mito: As grávidas não devem tomar a vacina da gripe.

É exatamente o contrário. As grávidas devem tomar a vacina da gripe.

Durante a gravidez, o sistema imunitário sofre adaptações que tornam a mãe mais vulnerável a complicações graves quando infetada pelo vírus da gripe — incluindo pneumonias, hospitalizações e, em casos mais sérios, risco para a própria gravidez e para o bebé.

A vacina da gripe utilizada em grávidas é feita com vírus inativado — não é uma vacina viva. Décadas de investigação e milhões de doses administradas a grávidas em todo o mundo demonstram a sua segurança, tanto para a mãe como para o feto.

E os benefícios não ficam por aqui

Quando uma grávida é vacinada:

•          Reduz o seu próprio risco de ter gripe e complicações

•          Transfere anticorpos para o bebé através da placenta

•          O recém-nascido nasce com proteção passiva contra a gripe nos primeiros meses de vida — precisamente quando ainda é pequeno de mais para receber a sua própria vacina

Esta última razão é, talvez, a mais importante. A gripe num bebé de poucas semanas pode ser grave. A vacinação da mãe durante a gravidez é uma das formas mais eficazes de o proteger.

E durante a amamentação?

Também é segura. Não há qualquer efeito negativo para a mãe ou para o bebé.

A vacina deve ser administrada no outono (outubro–novembro) a todas as mulheres grávidas durante a época gripal, salvo alergia conhecida a componentes da vacina.

Se está grávida ou a planear engravidar, converse com o seu obstetra e com o pediatra sobre o plano vacinal — da gripe e também de outras vacinas recomendadas, como a da tosse convulsa.


6. Férias, praia e piscina: é verdade que não se pode ir à água depois de comer?

Mito: Se entrar na água logo após comer, corre risco de “corte de digestão” e afogamento.

Gerações de crianças portuguesas cresceram a ouvir, à beira-mar, o famoso “só lá para as quatro, porque agora acabaste de almoçar”. A ideia é que a digestão desvia sangue para o intestino, deixando o resto do corpo “fragilizado”, ou que se podem ter cãibras que levam ao afogamento.

As grandes séries de estudos sobre afogamentos (e quase-afogamentos) em todo o mundo não identificam a refeição recente como fator de risco. Os verdadeiros fatores de risco são outros, e é importante conhecê-los:

•          Não saber nadar

•          Supervisão adulta deficiente (o principal fator de risco em crianças pequenas)

•          Consumo de álcool (o único líquido que realmente aumenta o risco antes de entrar na água)

•          Traumatismos dentro de água (mergulhos em zonas desconhecidas)

•          Correntes marítimas fortes

•          Hipotermia

•          Problemas cardiovasculares em adultos mais velhos

O aviso verdadeiramente importante para os pais

As crianças pequenas — sobretudo até aos 4 ou 5 anos — podem afogar-se em poucos centímetros de água. Em baldes deixados cheios no jardim, em banheiras, em piscinas de plástico, em fontes decorativas. O afogamento em crianças é silencioso, rápido e muitas vezes não envolve nenhum “grito por socorro” como nos filmes.

A regra de ouro não é esperar duas horas após a refeição. É nunca, em momento algum, deixar uma criança pequena sem supervisão direta de um adulto perto de água. Em piscinas ou praias com várias crianças, designe um adulto responsável pela vigilância num dado momento — e que essa pessoa não esteja distraída com o telemóvel.

Coma o seu lanche descansado. Depois volte para a água, se apetecer. O que faz diferença é outra coisa: olhos nos miúdos.


7. Queimadura em casa: o que fazer (e porque não deve pôr manteiga)

Mito: Barrar uma queimadura com manteiga, pasta de dentes ou óleo acelera a cicatrização.

Esta é uma crença perigosa, ainda muito presente em Portugal. Vamos desmontá-la.

Pôr manteiga (ou qualquer gordura) numa queimadura é errado e pode piorar a situação. Porquê?

•          A gordura retém o calor na pele, prolongando a lesão

•          Cria um ambiente ideal para infeção bacteriana

•          Aumenta a dor

•          Dificulta a observação médica, caso seja necessária

O mesmo se aplica a pasta de dentes, clara de ovo, batata crua, álcool, gelo aplicado diretamente sobre a pele. Nenhum destes “remédios caseiros” ajuda. Vários chegam a agravar.

O que fazer, passo a passo, numa queimadura em casa

1. Afastar a fonte de calor. Se a roupa arde, abafe as chamas com um cobertor ou deite a pessoa no chão e role. Se a roupa está quente mas não colada à pele, remova-a com cuidado.

2. Arrefecer com água corrente tépida, não gelada, durante pelo menos 10 a 20 minutos. A água pode ser fresca, sim — mas não use gelo, que pode causar lesão adicional pelo frio.

3. Limpar apenas com água. Não use desinfetantes coloridos (iodopovidona, mercurocromo), que mancham a pele e dificultam a avaliação médica.

4. Deixar a queimadura ao ar, ou cobrir com uma compressa estéril limpa e seca, sem apertar. Não rebente bolhas.

5. Nada de cremes caseiros. Se for uma queimadura ligeira (1.º grau — vermelhidão sem bolha, numa pequena área), basta a água fria e deixar cicatrizar. Para a dor, pode dar paracetamol na dose adequada ao peso da criança.

Quando levar a criança ao médico (ou ao hospital)

•          Qualquer queimadura com bolhas (2.º grau) com mais de 2-3 cm

•          Queimaduras na face, mãos, pés, genitais, ou em pregas articulares

•          Queimaduras circulares à volta de um membro

•          Qualquer queimadura elétrica ou química

•          Queimaduras em bebés ou em zonas extensas

•          Sinais de infeção nos dias seguintes (vermelhidão crescente, calor, pus, febre)

Lembrem-se: a prevenção é tudo. Pegas de panelas e frigideiras viradas para dentro, líquidos quentes longe da beira da mesa, toalhas de mesa substituídas por individuais em casa com crianças pequenas, água do banho sempre testada pelo adulto antes de o bebé entrar.


8. “Engoliu uma pastilha elástica!” — acalmar os pais em 3 minutos

Mito: Uma pastilha elástica engolida fica 7 anos no estômago.

É o tipo de pânico que pode transformar uma tarde tranquila numa corrida ao serviço de urgência. Vamos desmistificar.

É verdade que a base da pastilha elástica — feita de resinas, elastómeros e gorduras — não é completamente digerida pelos sucos gástricos. Até aqui, a crença tem razão. Mas o que a crença ignora é o resto da viagem.

O tubo digestivo não é um armazém parado. É um sistema com movimentos contínuos (os chamados movimentos peristálticos) que empurram tudo o que lá entra em direção à saída — digerido ou não. A base da pastilha simplesmente acompanha essa viagem: passa pelo estômago, pelo intestino delgado, pelo intestino grosso, e é eliminada nas fezes alguns dias depois, tal como acontece com outras fibras ou partículas indigestas da alimentação.

Quando é que uma pastilha engolida pode ser um problema?

Raramente. Mas há situações a ter em conta:

•          Criança muito pequena (abaixo dos 3 anos) que engole uma pastilha grande — aí o risco maior é de engasgamento na altura, não da digestão

•          Várias pastilhas engolidas ao mesmo tempo, sobretudo junto com outros objetos estranhos (moedas, clips) — pode, em teoria, formar um pequeno bolo que demora mais tempo a passar

•          Doenças que afetam a motilidade intestinal — mas nessas situações o problema não é a pastilha, é a doença de base

Na esmagadora maioria dos casos, uma criança saudável que engoliu uma pastilha elástica não precisa de nenhum tratamento, não precisa de laxante, e não precisa de ir à urgência.

E o mito dos 7 anos?

Não se sabe bem de onde veio, mas pode ficar descansado: não há um único caso documentado na literatura médicade uma pastilha elástica que tenha permanecido anos no estômago de alguém saudável.

Respirem fundo, observem a criança nas 24 a 48 horas seguintes, e se tudo estiver bem — come normalmente, não se queixa de dores, não vomita — podem arquivar o episódio nos álbuns de família.


9. Vitamina C para a constipação do inverno: funciona mesmo?

Mito: Tomar vitamina C todos os dias previne constipações e gripes, e acelera a recuperação quando se está doente.

Esta crença é provavelmente tão antiga quanto o próprio marketing dos sumos de laranja. Mas a evidência científica é bastante clara, e não confirma as expectativas.

Uma revisão sistemática que analisou mais de 11 000 participantes, ao longo de 29 ensaios clínicos, comparou a toma diária de vitamina C com placebo. Os resultados, muito resumidamente:

•          Na prevenção de constipações na população geral: praticamente sem efeito.

•          No tratamento de sintomas já instalados: sem benefício consistente.

•          Em casos muito específicos (atletas de alta competição sob stress físico extremo, por exemplo), pode haver uma pequena redução na duração dos sintomas — mas isto não se aplica a crianças saudáveis em casa.

A ideia de que megadoses de vitamina C “reforçam as defesas” é apelativa, mas não corresponde à fisiologia real. O corpo absorve o que precisa e elimina o resto pela urina. Tomar mais não equivale a ter mais proteção — equivale, quase sempre, a urina muito cara.

Então o que devo dar ao meu filho no inverno?

Uma alimentação variada e equilibrada, rica em fruta e legumes frescos, fornece naturalmente toda a vitamina C de que a criança precisa. Uma laranja, um kiwi, um pimento vermelho — qualquer destes alimentos dá, sem esforço, mais vitamina C do que a necessidade diária de uma criança.

O que realmente funciona contra as constipações

•          Lavar as mãos com frequência (a medida individual mais eficaz)

•          Vacinação contra a gripe a partir dos 6 meses de idade

•          Arejamento dos espaços fechados

•          Ficar em casa quando se está doente, para proteger os outros

•          Descanso e hidratação quando a constipação aparece — o corpo faz o resto

Se aparecer febre alta prolongada, dificuldade respiratória, prostração ou recusa alimentar, aí sim, precisa de avaliação médica — e não há vitamina que substitua isso.


10. Suplementos e multivitamínicos para crianças: são necessários?

Mito: Dar um multivitamínico diário “reforça as defesas” e compensa eventuais falhas da alimentação.

A prateleira dos suplementos, nas farmácias e supermercados, tem crescido de ano para ano. Gomas coloridas, xaropes doces, embalagens apelativas dirigidas às crianças. A pergunta é: serão necessários?

Para a grande maioria das crianças saudáveis, em países como Portugal, com acesso a uma alimentação variada — a resposta é não.

Uma revisão sistemática de grande dimensão que analisou dezenas de estudos concluiu que, em indivíduos bem nutridos, os suplementos multivitamínicos não reduzem a mortalidade nem melhoram os indicadores gerais de saúde. Em alguns estudos, em populações adultas, até se observou um ligeiro aumento de risco com o consumo prolongado de certos antioxidantes em dose alta (como beta-carotenos ou vitamina E).

Isto não quer dizer que os suplementos sejam “veneno”. Quer dizer que não há uma razão científica para os dar por rotina a crianças que comem bem.

Situações em que a suplementação pode ser indicada

Há, claro, situações específicas em que um suplemento é recomendado pelo médico:

•          Vitamina D nos primeiros meses de vida (prática universal em Portugal)

•          Ferro em crianças com anemia ou deficiência de ferro diagnosticada, ou em prematuros

•          Vitamina B12 em crianças com dietas vegetarianas/veganas estritas

•          Suplementação específica em doenças crónicas, má absorção intestinal, ou casos de alimentação muito restritiva

Nestes casos, o suplemento é um medicamento — com dose, duração e monitorização definidas pelo pediatra.

O que realmente faz a diferença na saúde do seu filho

•          Comida de verdade: fruta, legumes, cereais integrais, peixe, ovos, leguminosas

•          Água como bebida principal (não sumos nem refrigerantes)

•          Dormir o suficiente para a idade

•          Brincar ao ar livre todos os dias

•          Afeto, rotinas, limites consistentes

•          Vacinas em dia

•          Consultas de vigilância regulares

Um multivitamínico nunca vai compensar uma infância passada com ecrãs e comida processada. E uma infância com comida real e ar livre não precisa de multivitamínico.

Se tiver dúvidas sobre a alimentação do seu filho, ou se notar que ele come muito pouco variado, não comece por comprar suplementos. Traga o tema à consulta — muitas vezes o que parece “falta de vitaminas” é, na verdade, uma fase alimentar perfeitamente normal que se resolve com paciência e estratégia, não com gomas.

Nota final

Os textos desta série foram preparados com inspiração direta na obra Mitos e Crenças na Saúde, do Prof. Doutor António Vaz Carneiro (Livros Horizonte, 2019) — uma leitura que recomendo vivamente a todos os pais interessados em pensar sobre a sua saúde e a da família com o apoio da melhor ciência disponível.

A medicina baseada na evidência não é fria nem distante. É, pelo contrário, a forma mais respeitosa de cuidar de quem amamos: tomar decisões informadas pelos melhores dados que a humanidade conseguiu reunir até hoje. Os mitos são compreensivelmente humanos, e muitos deles atravessam gerações com boa intenção. Mas quando se trata da saúde dos nossos filhos, merece a pena parar e perguntar: “o que é que a ciência diz mesmo sobre isto?”

Se alguma dúvida sobre algum destes temas persistir, falamos na consulta. É para isso que lá estamos.

Dr. Sérgio Lamy

Pediatra

Recentes

A Jornada Alimentar do Seu Bebé

Guia nutricional dos 0 aos 15 meses baseado na mais recente ciência. Previna o síndroma metabólico, promova a tolerância imunológica e respeite o ritmo do seu filho.

«Não te preocupes, é só uma virose.»

Cisnes brancos e cisnes negros O reconhecimento do raro no meio do banal Porque nem tudo o que parece uma simples virose o é, de facto «Não te preocupes, é só uma virose.» Ouvimos esta frase todos os dias, em todas as casas, em todos os consultórios. E, na esmagadora maioria das vezes, está certa. É precisamente por estar certa quase sempre que, nas raras vezes em que está errada, se torna tão perigosa.